Quando o “bom tom” alheio te enoja.
E por falar em “bom tom”, ouvi uma que fiquei.. sei la, nem sei definir. Talvez chocada, perplexa, enojada.
Aqui na França é tradiçao em batizados os padrinhos darem uma correntinha + uma medalhinha com o nome do bebe gravado. Em ouro. Outra tradiçao é escolherem quase que como uma obrigaçao alguém da familia para ser padrinho e madrinha. Primeiro os irmaos dos pais, e depois tios, avos, etc. Eu nao sou contra essa escolha dentro da familia, se a familia for realmente muito proxima, super amigos e etc.. mas assim, so porque é parente, nao acho certo.
Creio que a escolha dos padrinhos para o filho se faça na base de afinidade com os pais, amizade, convivência.. Claro que muita gente escolhe amigos como padrinhos e depois os pais se afastam dos amigos e a criança “sobra”. Mas isso acontece na familia também, e até parece um fardo o parente ser seu padrinho porque ficam os dois com aquele sentimento estranho que deveriam ser mais proximos - e nao sao.
Eu nao tenho padrinhos, nao fui batizada, para poder escolher mais tarde a minha religiao, e fico feliz por isso. Uma coisa que é bem engraçada é que isso (de eu nao ser batizada) choca algumas pessoas ainda, como se faltasse alguma coisa em mim, mesmo eu nao tendo hoje uma religiao rigida definida. E é logico que é com essas pessoas que eu gosto de tirar mais onda. Porque respeito quem leva a sério e batiza e cumpre os deveres assumidos no batizado, mas para mim batizar nao serve para nada. “Livrar do pecado original”??? Me poupe!! Sexo para mim nao é pecado. Batizado é no maximo é uma escolha dos pais em nome dos filhos.. e os filhos podem ou nao acatar mais tarde. O que eu nao levo a sério é fazer questao de levar a criança na igreja uma vez e depois nunca mais.. Eh inconsistente. Nao é para mim.
Eu também nao casei na igreja porque nao fiz a menor questao. Acho linda a cerimonia, mas a igreja nao faz parte da minha vida e nao acho que eu deva inclui-la so no album de fotos, pagando uma quantia de dinheiro e jurando coisas que eu nao estou disposta a fazer. Quando me casei, foi so no civil, com direito a uma festa de dia na casa dos meus pais. Eu so tive direito à duas testemunhas, e nao aos varios padrinhos que queria escolher. Isso me fez falta, os padrinhos. O padre, nao. Escolhi como testemunhas a minha avo (que faleceu 3 anos depois) e meu tio (que é casado com a irma da minha mae), que é muito querido. Escolhi por gosto, e nao por pensar “quem eu deveria escolher”, e muito menos pensar o que eles poderiam/deveriam me dar de presente, coisa que penso que é tao abjeta que nem gosto de pensar.
Pois entao. Voltando ao assunto inicial do post, tendo meu marido sido escolhido como padrinho de seu sobrinho, e a irma do pai do bebe como madrinha, fomos ver preços de medalhinhas e correntinhas. Bem.. posso dizer que ouro é sempre caro, mas aqui na França os preços sao realmente absurdos.. mas isso nao vem ao caso. Vendo o preço da corrente e da medalha em ouro (sendo que so meu marido pagaria pelo presente, porque a madrinha nao tem condiçoes), pensamos em dar a medalha em ouro e a corrente chapeada a ouro.. (que é cara também, mas a metade do preço da outra). A vendedora era so sorrisos enquanto escolhemos a medalha em ouro, mas quando pedimos para ver a corrente chapeada, ela pegou duas e falou que nao combinava, e foi mostrar as de ouro. Sem perguntar se queriamos ve-las. Falei que nao, que so levariamos a medalha. Que desaforo! E dai ela fez um sermao, falando que entendia que nem todo mundo tinha dinheiro para tudo, mas que era preferivel levar so a medalha em ouro mesmo, que nao era de “bom tom” levar a corrente chapeada.. porque assim parecia que a gente nao tinha dinheiro para dar uma de ouro e deu uma mais barata. E continuou falando, e repetindo, que era de mau gosto levar presente chapeado, etc… Acho que meus olhos foram saltando a cada palavra dela, fiquei perplexa. Comecei a falar que a intençao era que contava, mas acho que meu marido percebeu minha indignaçao e dai interrompeu e fomos embora. Melhor assim, porque eu ia passar um sermao “os pobres também amam” para ela…
Poxa, quer dizer que uma pessoa que nao tem dinheiro para comprar uma medalha e corrente de ouro (cada uma no valor de mais ou menos 10% do salario minimo frances, ou seja, 100€ ), nao pode ser padrinho? Que nao pode ser padrinho quem é pobre, e se quiser dar um presente simbolico sera visto como de mau gosto? De “nao-bom-tom”???? Fiquei possessa!!! Quanta humilhaçao ela deve ter feito passar gente que nao tinha condiçao de dar um presente de ouro, mas tinha vontade de fazer o gesto? Ainda mais porque a familia em questao nao é mega catolica.. a ultima vez que eles foram para a igreja foi para o casamento deles, e agora para arrumar a papelada do batizado.. entao essa medalha e corrente provavelmente nao serao usadas como forma de fé e etc.. ficara numa caixa perdida, como ficou a do meu marido.. A medalha dele de batizado esta no meu porta-joias, porque senao ele a perderia, porque nao da a minima.. Por que nos temos que levar a sério e fazer um esforço por algo que nem a gente nem os outros acreditam? Pelo bom tom?
Quem decide o que é o bom tom?
E por que levar a sério tem que ser dar um metal ou outro numa medalha???? Com o preço? O preço define a intençao? O preço define o valor sentimental?
Achei que a vendedora foi realmente quem teve o mau gosto de abrir a boca e falar isso. Ela poderia ter ficado de boca fechada, afinal nao estavamos ali para uma liçao de etiqueta, e sim para comprar o produto que pudessemos. Esse é o exemplo do silêncio de bom tom.
Fiquei até com raiva da medalhinha. E decidi que nao vamos gravar o nome do bebê la. Seriam mais 26€ so para a gravaçao. Eu queria na verdade falar: entao me vê ai uma medalha E uma corrente chapeadas..talvez até falso dourado, so a tinta dourada mesmo, porque o que vale para mim é o gesto. Acho que a senhora desmaiaria.. e na chegada do médico iria dizer: fui atacada pela falta de bom tom daquela mulher ali!! Prendam-na!
Nunca me perguntei se o que ganhei era de ouro ou chapeado, o que me interessa é a forma e o gesto. Guardo com muito carinho uma medalhinha que ganhei de um aluno, uns 10 anos atras.. e os brincos que ganhei de um ex-namorado..os uso de vez em quando, com carinho, sem me perguntar o material. Minha aliança de casamento é de prata até hoje, 4 anos depois, porque nao nos importamos o suficiente com isso para muda-la para uma de ouro ou sei la o que. Eu quero mudar, mas pelo design.. nao pelo valor. Eh aquela maxima antiga: cada coisa tem o valor que a gente da a ela.
E você, acha que as coisas têm mais valor quando elas tem um maior valor em dinheiro? Acha que uma coisa valiosa materialmente perde o valor se é dada sem emoçao? Ou o que importa é fazer um pé de meia com os presentes alheios? Ja recebeu algum presente que nem o charreteiro do ferro velho iria querer, mas do qual você nao se desfaz por preço algum?
ps: Eu tenho duas afilhadas, muito queridas, que batizei na igreja (apesar de teoricamente nao poder, por nao ser batizada. Mas as igrejas em questao nao se importaram). Mas fiz questao de nao repetir e jurar quando o padra disse que eu iria cria-las na igreja catolica. Nao pretendo incentiva-las em lado nenhum de igreja, gostaria que elas crescessem com a visao aberta de mundo e nao fechadas dentro de regras que alguém (que nao foi deus) escreveu e elas iriam seguir como carneirinhas. O que eu espero é que elas sejam felizes e contem comigo para isso. E que nao dêem valor no presente pelo valor, mas pelo gesto. Por que isso pra mim é que é bom tom.