17 de Agosto de 2007

A vida apos a decepçao de Maria

Publicado por Cris Motta em ...mais que palavras.. idéias..

E por falar em tristeza, so sabemos o quanto nos doi uma decepçao quando temos uma. E depois parece que esquecemos um pouco, até a proxima cair nos nossos pés.
Bem, dessa vez nao aconteceu comigo, mas com uma pessoa bem proxima, e por isso estou sentindo meio que na pele a decepçao dessa pessoa com alguns amigos. De repente (como diria Vinicius: nao mais que de repente) um botao foi apertado e a cortina caiu, e o que se viu foi um pequeno show de horrores.
Mesquinhez.
Uma das qualidades que mais admiro nas pessoas é a solidariedade, o estender da mao, o sentimento que somos todos um, e que nessa corrente, se todos nos juntarmos, iremos mais longe, seremos mais fortes.
E a mesquinhez vai contra tudo isso. Ela quer tudo para ela, ela pensa no proprio bem, e nao se importa com quem esta a sua volta. E isso é um defeito horroroso. Quando fico sabendo de alguma historia nesse nivel, sempre me choca.
E quando fiquei sabendo dessa historia, fiquei enojada. Porque a mesquinharia saiu dos grandes amigos da vida dessa pessoa. Aquelas pessoas que passaram anos ao seu lado, e de repente você se vê na posiçao de questionar todos os momentos que passaram juntos e perguntar: sera que era interesse puro?
Essa pessoa, que vou chamar de Maria, para facilitar de contar a historia, tem uma familia que antigamente se diria “bem de vida”. Os pais de Maria tinham uma certa influencia, e por conta dessa influencia, suas amigas conseguiram coisas como viagens, estagios e oportunidades interessantes de crescer financeiramente e culturalmente. Maria encarava tudo isso com grande felicidade, por ver que ela e suas amigas estavam virando adultas cheias de coisas legais para contar, experiencias enriquecedoras e mesmo superficiais, mas sempre financeiramente interessantes.
O tempo passou, a faculdade acabou e cada uma seguiu sua vida. Duas dessas amigas foram morar juntas e algum tempo depois, na hora de desfazer a republica, a mesquinhez apareceu. A divisao foi tensa, cada uma puxando para o seu lado, uma mais agressiva, fazendo calculos mirabolantes, para nao ser passada para tras, e tentando levar vantagem em cima da amiga. Tiveram também seus problemas durante o tempo juntas, como foi dito mais tarde. E o que impressiona é que as amigas tem, as duas, bons empregos, bons salarios. Gastam os tubos com coisas superficiais. Cito por exemplo ficticio, mas um bom exemplo, o que seria uma bolsa de 600 reais. Mas na hora de dar um presente para o outro amigo, cobrou a mais da Maria para nao pagar 2,50 a mais ela mesma (sendo que a Maria ganha hoje metade do salario dela, literalmente, e ela sabe). E ela acabou de comprar um carro zero. Coisas absurdas nesse nivel. Nao tem outro nome do que mesquinharia.
Desculpem os exemplos muito esmiuçados. Mas o choque é grande.
Varias outras coisas aconteceram nos ultimos tempos que tem levado Maria a uma grande tristeza. Ela repensa em tudo o que passou com as amigas, nas viagens que elas foram junto (por conta da familia) e no que a influencia da familia dela ofereceu para as amigas. E se questiona até que ponto nao era so interesse. Imagino a tristeza dela de pensar assim, de nao ter certeza que as pessoas que a rodeiam realmente se importaram com ela todos esses anos.

Uma frase que me tocou desde sempre é a seguinte: Compartilhar aquilo que te sobra, nunca foi compartilhar, mas sim, dar esmola.
Essa frase esta em uma musica do Alejandro Sanz (que amo!), e sempre penso nela, desde a primeira vez que a compreendi. Porque realmente é facil dar para alguém algo para comer quando ja nao temos fome. Pensamos em nos primeiro, nos saciamos, e so depois o outro tem direito a algo. Mas ai nao ha equilibrio. Se dividirmos na metade, cada um tera um pouco.
Nao consigo conceber como alguém pode ser egoista e continuar vivendo sem remorsos. Nao consigo conceber de fazer coisas desse tipo com ninguém, e fico imaginando que tipo de gente faz isso com os ditos amigos. Melhores amigos.

Mas o que me deixa feliz pela Maria é o seguinte: ja que nao sao bons amigos, melhor que ela soube agora. Melhor agora que ela ainda é jovem, do que passar a vida na mentira, sendo sugada e descobrir na velhice, ou numa eventual pobreza, sei la, bate na madeira; que tudo o que ela passou com os amigos foi ilusao.

Aos poucos na vida vamos evoluindo os pensamentos, as amizades, nosso meio. Uns amigos ficam pelo caminho, outros seguem junto conosco. Para mim e para todos, eu gostaria que os que ficam para tras, fiquem por “coisas da vida”, e nao por acontecer coisas do tipo do que aconteceu com a Maria. Porque assim é muito triste. Decepçao é um sentimento muito intenso. Intensamente triste. Eh como pular de bungee jump de um precipicio e seu amigo cortar a corda la no alto. Eh como se sentir vazio, so uma casca.

Mas infelizmente, a decepçao também é uma “coisa da vida”.

Nao é facil se refazer de uma decepçao.
Estou triste pela Maria, mas estou feliz que estou com ela nesse momento, e que temos pensamentos muito semelhantes sobre como encarar a vida e como é bom poder estender a mao para o outro.
E como diria uma comunidade do orkut: Decepçao nao mata, ensina a viver.
Nao mata, ok. Mas machuca. :(

E você, como descreveria o sentimento da decepçao? O que leva uma pessoa a ser mesquinha? Acha que uma pessoa mesquinha pode um dia enxergar o mundo de outra forma? E a decepçao, como supera-la?

8 de Agosto de 2007

Reflexo da infancia e esperança na humanidade

Publicado por Cris Motta em ...mais que palavras.. idéias..

E por falar em esperança, vi ontem um documentario sobre prisoes de segurança maxima. Mostraram duas prisoes, uma nos EUA, em Utah, e a outra na Africa do Sul, nao me lembro em qual regiao.
Realmente impressionante.
Todas as duas eram tomadas pelas gangues, o pessoal era MUITO violento e MUITO tatuado, inclusive no rosto, era uma coisa chocante de se ver. Falando um pouco do que vi na reportagem: nesse pavilhao, os presos ficam nas celas individuais de 2x3m, de paredes de concreto e portas blindadas, durante 23 horas por dia. A outra hora é um banho de sol, em um lugar nao muito maior que a cela, talvez o dobro do tamanho.. com um muro de uns 4, 5 metros, e la em cima, depois de grades, o sol, quando tem. Eu visitei pessoalmente uma prisao dessas nos EUA, quando morei la e participei de um programa de estudantes do Rotary. Eles queriam nos mostrar como “os americanos tomam conta de quem é fora da lei”, palavras de um cara que nos guiou na “excursao”. Pudemos visitar dentro de alguns pavilhoes, e vimos algumas celas, tudo muito branco, muito protegido. Na verdade pensando hoje nao sei como tive coragem de entrar la, todos os presos estavam fora das celas, e estavam no patio interno, de pé ao lado das celas. Se algum quisesse dar uma de doido e fazer um refém no meio daqueles 30 estudantes, faria facil, facil. Hoje eu nao faria a mesma coisa, de passear no meio deles (por medo e também por respeito, parecia que estavamos visitando um zoologico). Lembrando que quem esta ali, nao esta por um crime bobo, é por trafico, estupro, assassinato, etc. E dentro da prisao, tem uma outra prisao, que é o que eu descrevi ai em cima (isolados 23h por dia). Eles tomam banho 3 vezes por semana, e no inverno e nos dias de chuva eles nao saem das celas para o banho de sol. 24h por dia fechados em 2x3m. Sao 3 refeiçoes por dia, tudo super limitado no sentido de o que pode ter na cela. Nada de garfos, facas, etc. Por isso a refeiçao é sempre sanduiches e o suco que eles bebem vem em um saquinho tipo “chupa-chupa”. Podemos achar exagero, mas quando vemos o que é mostrado como armas caseiras que eles fazem com escovas de dente, haste de oculos.. é doido demais. So para terminar a descriçao nos EUA, mostraram um cara com tendencias suicidas e super violento. Tiveram que o por totalmente pelado, em uma cela sem nada. Nem travesseiro, nem lençol, nem escova de dente, nem nada. So uma cama de cimento e um vaso sanitario de metal (para nao poder ser quebrado) e com vigilancia de camera 24h por dia, sem ter como apagar a luz. Um inferno, nao? Pois bem, ele conseguiu, em uma saida para banho, trazer dentro da boca, uma gilete que pegou do aparelho de barbear e começou a se cortar os pulsos e escreveu F*** YOU na parede com o proprio sangue, mostrando para a camera e rindo. Ele nao morreu, os guardas chegaram e depois ele disse que nao queria morrer, mas ele nao tinha nada para fazer…
O que me marcou nos EUA foi a desesperança. Acho que todos os entrevistados tinham uma pena limitada, ou seja, seriam postos em liberdade depois de um tempo, e todos disseram que nao sabiam o que fariam, pois teriam um numero identificador de ex-criminoso, e também sao cheios de tatuagens em todos os lugares e nao conseguiriam emprego e uma vida normal (eles fazem as tatuagens na cadeia, com a caneta que eles tem direito para escrever.. agulhas feitas por eles e tinta de Bic).
Enfim, eles preferem de um certo modo ficar na prisao, pois perderam a esperança. E acho que o arrependimento bate nessa hora.

Na Africa do Sul tudo é muito mais pobre na prisao, poderiamos dizer mais parecido com uma prisao brasileira. Muita gente junta, ninguém de uniforme (diferente dos EUA), parece mais desorganizado, infelizmente. Mas as gangues estao por toda parte, e sao super organizados. E sao MUITO violentos, contando historias de cabeças cortadas dentro da prisao por diferenças de gangues. Sao também super tatuados, umas tatuagens super toscas, também feitas com tinta de caneta.
O que me chamou a atençao nesse programa que me inspirou foi uma experiencia que eles fizeram nessa cadeia na Africa do Sul.
Uma psicologa foi la para conversar com eles. O que foi super interessante foi que gente de duas gangues diferentes participaram da experiencia e interagiram, o que era teoricamente impossivel. Foram dez dias de atividades, coisa aparentemente boba, tipo se misturarem durante uma musica (eram 20) , e fazer grupo de 5, depois de 4, depois os pares. E trabalhar em pares. E em par, eles desenharam com giz de cera. Outro dia, ela pos musica lirica para eles escutarem e alguns chegaram as lagrimas. Fizeram exercicios de confiança, do tipo de um subir em uma mesa e se jogar, e os outros o pegarem para evitar a queda. Mostraram alguns homens fazendo isso, e eles falaram que nunca sentiram isso antes (a confiança). Um deles nao conseguiu nem falar de tao emocionado. Mas o que me emocionou foi um outro que contou a historia da infancia dele, que ele via todos os outros meninos pulando no colo de seus pais e ele nunca pulou no colo do pai dele, porque o pai nao tinha tempo. A psicologa ofereceu para ele pular com o grupo o recebendo, e ele abriu um sorriso (faltando muitos dentes, como a maioria la) e perguntou “eu posso?”. Dai ele pulou e nao preciso nem contar que ele chorou… e eu junto, claro.
Fiquei emocionada de ver como as coisas vividas na infancia refletem tao claramente na fase adulta. A psicologa falou que esse pessoal nao aprendeu coisas basicas como amor, pedir por favor, dizer obrigado, confiança, amizade, e que se aprenderam, sofreram uma lavagem cerebral das gangues.
Ao final desses 10 dias, viamos os presos com o rosto diferente. Foi impressionante a diferença.
Depois de 20 dias, a psicologa voltou ao presidio para ver como iam os homens que haviam seguido o curso. Um deles admitiu que o plano dele a principio era de mata-la, pois achava que ela queria destruir o poder das gangues.
Outro, que era um senhor de uns 60 anos, o chefe maximo da gangue, que estava na prisao fazia 34 anos, quis dar o seu depoimento. A primeira frase dele foi “O que eu quero dizer para a senhora, é que eu me sinto um idiota”. Ele se sentia um idiota pela vida que havia levado, por todo mal que ele havia feito a tanta gente, a tantas familias, inclusive a dele. E também o mal que ele tinha feito a ele mesmo. E as lagrimas escorriam pelo seu rosto. E aquele senhor que apareceu no começo da reportagem falando que matava mesmo, que mandava matar, ensinou como fazer um estilete de uma escova de dente, e etc; la estava ele, em lagrimas e com vergonha da vida que havia levado.

Me emocionei porque vi que nos piores lugares ainda ha uma esperança. Por detras das pessoas mais crueis pode existir uma criança que nao recebeu amor, que é esquecida e que cresceu sem apoio, sendo levada por outras crianças sem amor. Fiquei pensando que muito do mal que ha no mundo é culpa da ma educaçao que as crianças têm. Falta de apoio, de amor, de incentivo.
E vendo esse curso de dez dias que fez o pessoal tao cruel repensar um pouco sua vida, penso que as pessoas tem salvaçao, que o meio tem muita influencia negativa sobre 99% das pessoas. E influencia positiva também.
Fiquei esperançosa por um lado, mas também pensei na quantidade de gente que poe os filhos no mundo sem um minimo de condiçao, de planejamento, de vontade. E depois essas crianças crescem e culpamos a sociedade e o governo pela violencia.

E você, pensa que os casos aparentemente sem soluçao, de criminosos violentos pode ter soluçao (fora doenças mentais)? Você crê na forte influencia das coisas que vivemos na infancia, refletindo na idade adulta? Você tem esperança na humanidade?